segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Nessa mesma época, na Europa, enquanto um gê-nio contemporâneo de Colombo chamado Leonardo da Vinci (1452-1519) esboçava em desenhos futuristas criações como a bicicleta e o helic6ptero, o máximo de tecnologia que um camponês poderia se orgulhar de ter visto eram os moinhos. Além, é lógico, do seu ara-do. Como os americanos nunca usaram animais para tração, eles não conheciam nenhum dos dois. Apenas os incas domesticaram animais - a lhama -, e só para carga. Curiosamente, no entanto, com todas as suas estradas e lhamas, o comercio jamais teve qualquer expressão entre os incas, restringindo-se à venda de balas de coca e barras de sal.
A moeda, como meio de troca, não era conhecida por essas civilizações. O que não impedia uma intensa atividade comercial entre astecas. Grandes feiras vendiam de tudo em Tenochtitlán: tecidos, milho, aves, calçados e bebidas. Caravanas de negociantes cruzavam o império - que na época de Montezuma II contava com 38 províncias e vinte povos - trocando manufaturados da capital por jade, esmeraldas, plu-mas, conchas do mar e uma infinidade de outros pro-dutos de luxo. Numa sociedade que nem conhecia a roda como utensílio para o transporte, isso não era pouco.
Mas, apesar de todo esse esplendor, as culturas na-tivas não resistiram ao susto que veio do mar. Em 15l9, quando chegou ao México, Cortez contava ape-nas com 508 soldados e 100 marinheiros para enfren-tar um império que, imagina-se, somava cerca de 25 milhões de habitantes. Francisco Pizarro, o conquista-dor da civilização inca, comandava 100 homens quan-do desembarcou na América do Sul, e com esse gru-pelho conseguiu aprisionar o imperador Ataualpa, que tinha ido ao seu encontro à frente de 40 000 soldados. Fechados em seu próprio mundo, protegidos por um Estado que cuidava de tudo e de todos, esses povos foram derrotados mais pela sua incapacidade de lidar com o desconhecido do que pelos canhões. "Quando soube, através de seus emissários, que Cortez queria vê-lo, Montezuma II ficou sem voz. O imperador, em asteca tlatoani, 'aquele que fala', ficou mudo e perdeu seu poder'", lembra o historiador Jorge Luiz Ferreira, professor de História da América, da Universidade Federal Fluminense.
Os espanhóis representavam o impensável e souberam se aproveitar disso. Frente às tropas astecas de cava-leiros-águia e cavaleiros-jaguar, Cortez mostrou-se um hábil dissimulador e estrategista. Sabia que o confundiam com um deus - Quetzalcóatl - e portava-se como tal. Quando descobriu que eles não conheciam o cavalo, ordenou a seus homens que os animais mortos nas batalhas fossem enterrados para que os índios não descobrissem que eram de carne e osso. Segundo os códices dos astecas, documentos que eles escreviam para registrar sua história, ao re-ceber a comitiva de embaixadores de Montezuma, o conquistador mandou que seus soldados fizessem os cavalos galopar e disparassem os canhões ao mesmo tempo para impressionar os emissários do imperador. O impacto foi tão forte que todos desmaiaram. No sul, Pizarro deixou-se candidamente atrair por Ataualpa até Cajamarca. Encontrou-se cordialmente com o mo-narca-deus, que transbordava segurança cercado por sua gigantesca tropa e, na primeira oportunidade, tratou de aprisioná-lo. Os espanhóis também soube-ram tirar proveito da insatisfação dos povos submeti-dos por astecas e incas e transformá-los em aliados para destruir aqueles impérios.
Habituado a conviver com a diversidade, o cosmo-politismo europeu triunfou com sua estranha mistura de internacionalismo tecnológico. Marinheiros italia-nos, em caravelas idealizadas por portugueses, podi-am agora enfrentar o oceano graças h vela triangular latina, uma invenção árabe que permitia navegar mesmo com ventos contrários. Consultavam mapas gregos e, para se orientar, usavam a bússola, roubada aos chineses, e o astrolábio, dos árabes, enquanto um pó preto de nome pólvora, trazido da China por Marco Polo, munia os canhões com que espantavam os novos adversários. Com esse aparato tecnológico recolhido através do planeta, a Europa incorporou a América ao resto do mundo. Para os americanos, porém, o ingres-so custou caro. Em apenas trinta anos, os massacres e as doenças reduziram sua população de 80 mi-1hões para pouco mais de 10 milhões de habitantes. Sem contar a parcela paga em ouro.

O Esplendor que a Mata Escondeu
Entre as sociedades que floresceram no continente americano, todas deslumbrantes e sofisticadas, a mais esplendorosa nunca foi alcançada pelos olhos ávidos dos conquistadores. Quando Cortez desembarcou na América Central, a riqueza da cultura maia repousava
O Esplendor que a Mata Escondeu
Entre as sociedades que floresceram no continente americano, todas deslumbrantes e sofisticadas, a mais esplendorosa nunca foi alcançada pelos olhos ávidos dos conquistadores. Quando Cortez desembarcou na América Central, a riqueza da cultura maia repousava tranqüila, envolta pelas matas da Península do Yuca-tán, no México. Sete séculos antes do desembarque espanhol, sem que ninguém até hoje saiba com exati-dão por que, os maias abandonaram suas cidades, que só seriam redescobertas no século XIX.
Das grandes civilizações do Novo Mundo, apenas os maias desenvolveram um sistema de escrita fonética, capaz de compor palavras. Os astecas, com sua escri-ta pictórica, podiam no máximo descrever situações e personagens: o resto tinha que ser complementado pela narrativa do mensageiro. Os incas nunca domina-ram a escrita.
Na arte da escultura, eram inigualáveis. Suas está-tuas beiravam a perfeição. Às vezes, como na Grécia, prestando-se ao papel de colunas para prédios espeta-culares. Outras, reproduzindo divindades que lembram as obras de artistas indianos. Tudo para enfeitar cida-des lotadas de construções públicas. Quase sempre pirâmides, como as que os espanhóis encontraram em Tenochtitlán, ladeadas nas quatro faces por escadari-as. Ou então inovadoras, como o observatório cupular de Chichén Itzá, ainda hoje fonte de dúvida: seria uma construção ritual ou uma antecipação da arquitetura dos observatórios feita por um povo de mestres da astronomia? Essa resposta dificilmente alguém um dia terá.

Bibliografia
A conquista da América, Tzvetan Todorov, Editora Martins Fontes, São Paulo, 1991
Incas e astecas - Culturas pré-colombianas, Jorge Luís Ferreira, Editora Ática, São Paulo, 1988
História de vida privada, volume II, org. Philippe Aries e Georges Duby, Companhia das Letras, São Paulo, 1990